domingo, 19 de novembro de 2017

'Tenho medo de dormir': a cruel caçada por ossos de albinos no Malauí


Femia Tchulani é uma vendedora de legumes que sobreviveu a uma tentativa de sequestro organizada por "caçadores" de albinos, que queriam matá-la para tirar partes de seu corpo.

"Era uma sexta-feira. Cinco homens e uma mulher chegaram à minha casa por volta das 19h. Quando apareceram, eu estava na cozinha preparando o jantar. Meu marido estava do lado de fora.
Disseram que procuravam por mim. Disseram que eram policiais e estavam ali para me proteger porque receberam a informação de que queriam me matar.
Fiquei assustada. Eram pessoas desconhecidas, nunca as tinha visto antes. A chegada deles criou uma certa comoção e fez com que alguns dos nossos vizinhos se reunissem.
Apesar de terem dito que eram policiais, não usavam uniforme. No começo, não me convenceram. Mas então mencionaram o nome do chefe de polícia da nossa área. Nós até pedimos para que descrevessem o chefe; e eles os fizeram.
Na verdade, nos mostraram armas e até carteiras de identificação. Mas claro, a gente não tinha como saber se eram verdadeiros ou não.
Meu marido e eu, além de alguns vizinhos, concordamos em ir com eles a uma unidade policial. Quando chegamos lá, o posto estava trancado.
Os cinco que alegavam ser policiais chamaram outras três pessoas que estavam num bar próximo. Eles tentaram forçar eu e meu marido a irmos até outra unidade policial, mais longe da nossa área.
Foi tudo muito estranho, porque mandaram embora todos os curiosos que pararam perto da gente. Ficamos apenas eu, meu marido e os vizinhos que vieram conosco.
Meu marido insistiu que eles não deveriam me levar sozinha. Ele ficou argumentando que não tínhamos cometido nenhum crime; e, por isso, por que ir à polícia?
Quando perceberam que a gente não ia sair dali, ficaram nervosos e simplesmente foram embora.
Eu nunca os vi novamente desde aquele dia. Conhecemos os policiais que trabalham na nossa área, e essas pessoas eram desconhecidas, ninguém as conhecia.
Minha vida mudou completamente desde então.
Tenho oito filhos, alguns ainda na escola. Antes do incidente, eu comprava legumes e verduras no atacado e os vendia de porta em porta. Agora, tenho medo de andar pela cidade. Uso um banco para expor meus produtos na feira.

Perseguição a albinos

- No ano passado, a ONU emitiu um alerta no qual afirmava que 10 mil albinos no Malauí estão sob ameaça de morte por causa do interesse em partes dos corpos deles - que muitos acreditam dar sorte.
- Desde novembro de 2014, 19 albinos foram mortos e houve mais de 100 casos de desaparecimento ou tentativa de sequestro.
- Covas de albinos também são alvos de criminosos que removem os ossos dos cadáveres para vendê-los.
- A Anistia Internacional afirma que a maioria dos ataques contra albinos fica sem solução por causa da falta de capacidade da polícia de investigar.
- Ativistas dizem que a pobreza contribui para alimentar a crença de que partes do corpo de albinos trazem sorte e fortuna e também para sustentar esse comércio macabro.

Nenhum comentário:

Postar um comentário